A Vida e a obra de Bezerra de Menezes
Dr.
Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu no dia 29 de
agosto de 1831, em Riacho de Sangue, no Ceará,
descendente de antiga família das primeiras que vieram
do Sul povoar aquele Estado.
Em 1838 entrou para a escola pública da vila do Frade,
onde em dez meses se aprontou na leitura, em escrita e
em contas. Esteve com os pais no Rio Grande do Norte por
dois anos e retornou ao Ceará, logo depois, tornando-se
substituto do professor de latim, quando naquela região
potiguar. Doutourou-se em
1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No
dia 6 de novembro de 1858,
casou-se com Dª Maria Cândida de Lacerda, que faleceu a
24 de março de 1863, deixando-lhe dois filhos.
Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, no ano de 1838,
entrou para a escola pública da Vila do Frade, onde em
dez meses apenas, preparou- se suficientemente até onde
dava o saber do mestre que lhe dirigia a primeira fase
de educação. Bem cedo revelou sua fulgurante
inteligência, pois, aos onze anos de idade, iniciava o
curso de Humanidades e, aos treze anos, conhecia tão bem
o latim que ministrava, a seus companheiros, aulas dessa
matéria, substituindo o professor da classe em seus
impedimentos.
Seu pai, o capitão das antigas milícias e tenente-
coronel da Guarda Nacional, Antônio Bezerra de Menezes,
homem severo, de honestidade a toda prova e de ilibado
caráter, tinha bens de fortuna em fazendas de criação.
Com a política, e por efeito do seu bom coração, que o
levou a dar abonos de favor a parentes e amigos, que o
procuravam para explorar- lhe os sentimentos de
caridade, comprometeu aquela fortuna. Percebendo, porém,
que seus débitos igualavam seus haveres, procurou os
credores e lhes propôs entregar tudo o que possuía, o
que era suficiente para integralizar a dívida. Os
credores, todos seus amigos, recusaram a proposta,
dizendo- lhe que pagasse como e quando quisesse.
O velho honrado insistiu; porém, não conseguiu demover
os credores sobre essa resolução, por isso deliberou
tornar- se mero administrador do que fora sua fortuna,
não retirando dela senão o que fosse estritamente
necessário para a manutenção da sua família, que assim
passou da abastança às privações.
Animado do firme propósito de orientar- se pelo caráter
íntegro de seu pai, Bezerra de Menezes, com minguada
quantia que seus parentes lhe deram, e animado do
propósito de sobrepujar todos os óbices, partiu para o
Rio de Janeiro a fim de seguir a carreira que sua
vocação lhe inspirava: a Medicina.
Em novembro de 1852, ingressou como praticante interno
no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Doutorou- se
em 1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
defendendo a tese "Diagnóstico do Cancro". Nessa altura
abandonou o último patronímico, passando a assinar
apenas Adolfo Bezerra de Menezes. A 27 de abril de 1857,
candidatou-se ao quadro de membros titulares da Academia
Imperial de Medicina, com a memória "Algumas
Considerações sobre o Cancro encarado pelo lado do
Tratamento". O parecer foi lido pelo relator designado,
Acadêmico José Pereira Rego, a 11 de maio de 1857, tendo
a eleição se efetuado a 18 de maio do mesmo ano e a
posse a 1.o. de junho. Em 1858 candidatou- se a uma vaga
de lente substituto da Secção de Cirurgia da Faculdade
de Medicina. Por intercessão do mestre Manoel Feliciano
Pereira de Carvalho, então Cirurgião- Mor do Exército,
Bezerra de Menezes foi nomeado seu assistente, no posto
de Cirurgião- Tenente.
Eleito vereador municipal pelo Partido Liberal, em 1861,
teve sua eleição impugnada pelo chefe conservador,
Haddock Lobo, sob a alegação de ser médico militar.
Objetivando servir o seu Partido, que necessitava dele a
fim de obter maioria na Câmara, resolveu Bezerra de
Menezes afastar- se do Exército. Em 1867 foi eleito
Deputado Geral, tendo ainda figurado em lista tríplice
para uma cadeira no Senado.
Quando político, levantou- se contra ele, a exemplo do
que ocorre com todos os políticos honestos, uma torrente
de injúrias que cobriu o seu nome de impropérios.
Entretanto, a prova da pureza da sua alma deu- se
quando, abandonando a vida pública, foi viver para os
pobres, repartindo com os necessitados o pouco que
possuía.
Corria sempre ao tugúrio do pobre, onde houvesse um mal
a combater, levando ao aflito o conforto de sua palavra
de bondade, o recurso da ciência de médico e o auxílio
da sua bolsa minguada e generosa.
Desviado interinamente da atividade política e
dedicando- se a empreendimentos empresariais, criou a
Companhia de Estrada de Ferro Macaé a Campos, na então
província do Rio de Janeiro. Depois, empenhou- se na
construção da via férrea de S. Antônio de Pádua, etapa
necessária ao seu desejo, não concretizado, de levá-la
até o Rio Doce. Era um dos diretores da Companhia
Arquitetônica que, em 1872, abriu o "Boulevard 28 de
Setembro", no então bairro de Vila Isabel, cujo topônimo
prestava homenagem à Princesa Isabel. Em 1875, era
presidente da Companhia Carril de S. Cristóvão.
Retornando à política, foi eleito vereador em 1876,
exercendo o mandato até 1880. Foi ainda presidente da
Câmara e Deputado Geral pela Província do Rio de
Janeiro, no ano de 1880.
O Dr. Carlos Travassos havia empreendido a primeira
tradução das obras de Allan Kardec e levara a bom termo
a versão portuguesa de "O Livro dos Espíritos". Logo que
esse livro saiu do prelo levou um exemplar ao deputado
Bezerra de Menezes, entregando- o com dedicatória. O
episódio foi descrito do seguinte modo pelo futuro
Médico dos Pobres: "Deu- mo na cidade e eu morava na
Tijuca, a uma hora de viagem de bonde. Embarquei com o
livro e, como não tinha distração para a longa viagem,
disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno
por ler isto... Depois, é ridículo confessar- me
ignorante desta filosofia, quando tenho estudado todas
as escolas filosóficas. Pensando assim, abri o livro e
prendi- me a ele, como acontecera com a Bíblia. Lia. Mas
não encontrava nada que fosse novo para meu Espírito.
Entretanto, tudo aquilo era novo para mim!... Eu já
tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no "O Livro
dos Espíritos". Preocupei- me seriamente com este fato
maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era
espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz
vulgarmente, de nascença".
No dia 16 de agosto de 1886, um auditório de cerca de
duas mil pessoas da melhor sociedade enchia a sala de
honra da Guarda Velha, na rua da Guarda Velha, atual
Avenida 13 de Maio, no Rio de Janeiro, para ouvir em
silêncio, emocionado, atônito, a palavra sábia do
eminente político, do eminente médico, do eminente
cidadão, do eminente católico, Dr. Bezerra de Menezes,
que proclamava a sua decidida conversão ao Espiritismo.
Bezerra era um religioso no mais elevado sentido. Sua
pena, por isso, desde o primeiro artigo assinado, em
janeiro de 1887, foi posta a serviço do aspecto
religioso do Espiritismo. Demonstrada a sua capacidade
literária no terreno filosófico e religioso, quer pelas
réplicas, quer pelos estudos doutrinários, a Comissão de
Propaganda da União Espírita do Brasil, incumbiu- o de
escrever, aos domingos, no "O Paiz" tradicional órgão da
imprensa brasileira, a série de "Estudos Filosóficos",
sob o título "O Espiritismo". O Senador Quintino
Bocaiúva, diretor daquele jornal de grande penetração e
circulação, "o mais lido do Brasil", tornou-se mesmo
simpatizante da Doutrina Espírita.
Os artigos de Max, pseudônimo de Bezerra de Menezes,
marcaram a época de ouro da propaganda espírita no
Brasil. De novembro de 1886 a dezembro de 1893, escreveu
ininterruptamente, ardentemente.
Da bibliografia de Bezerra de Menezes, antes e após a
sua conversão do Espiritismo, constam os seguintes
trabalhos: "A Escravidão no Brasil e as medidas que
convém tomar para extingui-la sem dano para a Nação",
"Breves considerações sobre as secas do Norte", "A Casa
Assombrada", "A Loucura sob Novo Prisma", "A Doutrina
Espírita como Filosofia Teogônica", "Casamento e
Mortalha", "Pérola Negra", "Lázaro -- o Leproso",
"História de um Sonho", "Evangelho do Futuro". Escreveu
ainda várias biografias de homens célebres, como o
Visconde do Uruguai, o Visconde de Carvalas, etc. Foi um
dos redatores de "A Reforma", órgão liberal da Corte, e
redator do jornal "Sentinela da Liberdade".
Bezerra de Menezes tinha a função de médico no mais
elevado conceito, por isso, dizia ele: "Um médico não
tem o direito de terminar uma refeição, nem de perguntar
se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate
à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter
trabalhado muito e achar- se fatigado, ou por ser alta
hora da noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou
no morro, o que sobretudo pede um carro a quem não tem
com que pagar a receita, ou diz a quem lhe chora à porta
que procure outro -- esse não é médico, é negociante de
medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos
gastos de formatura. Esse é um desgraçado, que manda
para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma
visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a
sede de riqueza do seu Espírito, a única que jamais se
perderá nos vaivens da vida.
Espíritas! Amai-vos eis o primeiro. ensinamento; instruívos, eis o segundo.
